quinta-feira, 5 de maio de 2011

EUA E BIN LADEN - PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

Barack Obama conseguiu em menos de três anos o que George W. Bush tentou de forma obstinada durante durante mais de sete anos - matar Osama Bin Laden, o grande vilão da história recente dos Estados Unidos e alçado à condição de inimigo número um dos norte-americanos desde 11 de setembro de 2001. Botar as mãos no líder da Al-Qaeda era uma questão de honra para os republicanos. Constata-se agora que o governo democrata decidiu agir inspirado pelos mesmíssimos desejos e sentimentos.

Em quase cadeia internacional de rádio e televisão, no domingo (01 de maio), à noite, quando o twitter bateu o recorde de mensagens (cerca de cinco mil posts por segundo), Obama, tal qual um caubói do velho oeste, anunciou ao mundo: "pegamos Bin Laden. Eu comandei, eu liderei, eu acompanhei, eu dei as ordens". Ao término do discurso, recheado de mensagens eleitorais, virou as costas e saiu de cena em silêncio, sorriso incontido no rosto, de forma triunfal.

Obama reconheceu: a ordem não era pegar, mas matar Bin Laden. Mas até mesmo os nazistas, ao final da II Guerra Mundial e ainda sob a comoção planetária causada pela tragédia do Holacausto, tiveram direito a julgamento no Tribunal Internacional de Nuremberg. Bin Laden também não deveria tê-lo? 

Sim, Osama é criminoso, assassino, deveria ser punido e pagar por seus crimes horríveis; o que comandou em 11 de setembro de 2001 não foi uma ação revolucionária, mas um deplorável ato terrorista. Mas pode um Estado democrático desrespeitar as leis e tratados internacionais (incluindo a Convenção de Genebra, que fala na proteção de prisioneiros capturados com vida, já que os EUA falam tanto em "guerra" contra o terror)? Pode um Estado confundir justiça com vingança, trocar a civilização pela barbárie e executar sumariamente um criminoso, igualando-se a este e fazendo valer o "olho por olho, dente por dente"?

Em um primeiro momento, os EUA até tentaram "justificar" a ação, alegando que havia seguranças, que Bin Laden estaria armado e teria usado uma mulher como escudo... Farsas. E não demorou 24 horas para que todo esse discurso fosse negado - Bin Laden não estava armado, pouco pôde fazer, não havia mulher-escudo. Ainda assim, soldados estadunidenses fortemente armados, muito bem treinados e com equipamentos de última geração atiraram, provavelmente depois de terem conseguido render Bin Laden, e de uma curta distância. Que nome podemos dar a esse procedimento a não ser execução sumária?

A operação foi mantida em segredo e sequer comunicada às autoridades paquistanesas; a invasão do esconderijo de Bin Laden aconteceu no início da madrugada, quando a cidade já dormia, usando helicópteros que voavam a baixas altitudes, para escapar dos radares e sistemas de segurança do Paquistão (aliado dos EUA, não? Muy amigos...). A ação tinha de ser rápida, para também não dar tempo de que tropas paquistanesas chegassem ao local para saber afinal de contas o que estava acontecendo de tão importante. Pois podem então os EUA cruzar fronteiras de outro país, na calada da noite, sem autorização prévia e oficial? Podem invadir espaços aéreos? Podem solenemente ignorar soberania de outros Estados nacionais? Podem fazer poeira e jogar na lata do lixo as regras do Direito Internacional?

Não custa lembrar que as autoridades estadunidenses, CIA à frente, já reconheceram que as pistas principais a respeito do tal mensageiro misterioso que acabou por levar ao esconderijo de Bin Laden foram fornecidas por prisioneiros da base de Guatánamo, brutalmente torturados - o que os EUA em eufemismo torpe têm chamado de "técnicas coercitivas de interrogatório". É legal e legítimo portanto aceitar, institucionalmente e como política de Estado, a tortura como método de investigação? Os fins justificam os meios? Em nome da "guerra ao terror", vale tudo, inclusive atentar contra a dignidade humana?

Os precedentes estão dados. A porteira está escancarada. Quem será o próximo inimigo dos EUA a ser assassinado? Qual país terá suas fronteiras violadas? Onde serão instalados novos centros de tortura? 

O presidente Obama certamente não descerá do palanque para se dignar a apresentar respostas para essas questões. Nem precisa. Quando se trata afinal de defender o império da "guerra contra o terror", nada mais parecido com um republicano do que um democrata - e vice-versa. Não por acaso, Obama comemora a morte de Bin Laden em ato público realizado no chamado marco zero, onde ficavam as torres gêmeas derrubadas em 11 de setembro de 2001. Foi ali mesmo que George W. Bush declarou, megafone em punho, a "guerra ao terror", logo após os atentados. Faz sentido.

--------------
Em tempo - apenas mais uma pergunta que não quer calar: depois de ordenar o assassinato de Bin Laden, o presidente Obama terá a dignidade de renunciar ao Nobel da Paz de 2009?

8 comentários:

  1. Gostei bastante no texto Chico. Infelizmente os líderes norte-americanos continuarão encontrando um meio de passar por cima dos meios. Até mesmo os mais carismáticos, como Obama, que deve ter ficado preocupado em agradar um pouco mais os estadunidenses após as últimas eleições de meio ciclo.

    ResponderExcluir
  2. Brincadeira tem hora quantas vezes EUA vai matar bilad. Numca, e se tivesse matado matou uma formiguinha o exécito dele é grande, vocês não acha tarde demais. Para de brincadeira. Que mídia para as proximas eleções Obama conseguiu!!!

    ResponderExcluir
  3. Parabéns Chico, o imperialismo americano ataca mais uma vez e boa parte do resto do mundo parabenizaram essa execução e desaparecimento do corpo do "animal". Chico e a festa feita nos EUA após a nóticia, o que você achou disso?

    ResponderExcluir
  4. Acho que cabe lembrar que Bin Laden é cria da CIA...

    ResponderExcluir
  5. Pois é Chico, e quando parar com a "Guerra", quando entender o que realmente é a paz, quem dera Obama fosse digno de recusar o Nobel, pena que se virar moda teremos muitas devoluções rs.

    ResponderExcluir
  6. Chico, muito oportunas as reflexões sobre o caso Bin Laden. Especialmente oportuno pensar sobre o papel de um Nobel da Paz nesse episódio. Creio que alguém que prega a paz jamais deveria atentar contra a vida, ainda que essa vida seja de um alguém considerado inimigo. Talvez eu analise a questão de forma superficial e não compreenda as entrelinhas desse processo, mas sou a favor da vida em qualquer circunstância.

    ResponderExcluir
  7. Kyrian, certamente Obama vai usar à exaustão o assassinato de Bin Laden - é o troféu que pode ajudar a garantir a reeleição. Paulo, acho sempre lamentável comemorar mortes. A gente deve mesmo é celebrar a vida. O Estado civilizado existe para julgar e punir, de acordo com leis, não para executar e agir como vingador. Adriano, não penso que sua análise seja superficial, ao contrário - é humanista. Abraços a todos e muito agradecido pelos comentários!Chico

    ResponderExcluir
  8. Parabéns Chico, como sempre vc anlisando todos os ângulos.
    Soeiro

    ResponderExcluir