domingo, 20 de março de 2011

ANGÚSTIAS E DÚVIDAS SOBRE A VISITA DE OBAMA E A AÇÃO MILITAR CONTRA A LÍBIA

Assumo honestamente: tenho mais perguntas do que respostas. Este portanto é um post agoniado, marcado por dúvidas, muitas dúvidas, mas querendo justamente apresentar algumas das questões que me incomodam para que se possa, ainda que timidamente, no limite do que este blog é capaz de alcançar, fomentar o debate coletivo - e, quem sabe, ajudar a amadurecer possíveis reflexões.

Também me decepcionei profundamente com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Compreendo a correlação de forças, entendo que não é fácil lidar com falcões republicanos, Tea Party e afins fazendo oposição violentíssima. Mas penso que muitas das enormes esperanças vislumbradas com a eleição dele transformaram-se em profundas frustrações (rios de dólares para bancos, manutenção dos julgamentos de Guantánamo, reforço de tropas no Afeganistão, timidez no encaminhamento do processo de negociações entre palestinos e israelenses, acordos para aliviar os mais ricos de impostos nos EUA, apoio quase até o final ao ditador egípcio Hosni Mubarak). Minha impressão é que Obama investiu em movimentos e apostas equivocadas: cedeu e fez concessões aos inimigos (nesse caso, não são apenas adversários), distanciando-se de sua base popular, ideológica e institucional de apoio, isolando-se e colocando em risco a própria reeleição.

Não aceito em hipótese alguma a arrogância e a soberba dos serviços secretos estadunidenses que revistaram ministros e autoridades brasileiras durante a passagem de Obama por Brasília e exigiram que casas na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, fossem evacuadas, em nome da garantia de segurança. Tais aberrações arranharam tremendamente nossa soberania. Uma afronta mais do que desrespeitosa. Há que se repudiar ainda a prisão de estudantes e militantes de partidos de esquerda e de organizações sociais que protestavam contra a presença do presidente norte-americano no Brasil. Tais atos representam o contraponto e o contraditório e fazem parte da democracia. 

No entanto, sempre no entanto, penso ter sido extremamente importante a visita de Obama ao país. Antes de mais nada, há que se lembrar e reforçar que se configurou uma relevante e simbólica inversão de papéis: pela primeira vez na História, o mandatário do Império tomou a iniciativa de visitar o Brasil, sem que um chefe de Estado brasileiro tivesse antes pisado em solo norte-americano. Parece-me um reconhecimento do espaço que o Brasil ocupa atualmente nas relações internacionais. 

Vale destacar o discurso altivo e independente da presidenta Dilma Rousseff que, olhos nos olhos, na frente de Obama, tocou respeitosamente, mas de forma incisiva, em questões delicadas para os Estados Unidos e falou em parcerias e inovações tecnológicas, crise econômica e dólar desvalorizado propositalmente, multilateralismo e necessidade premente de uma integração mundial que se dê entre os iguais. Detalhe: Dilma fez o discurso em Português.

E, mesmo não alcançando ainda a contundência e a evidência desejadas, Obama manifestou "apreço à aspiração do Brasil de tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU". Não foi o ideal, mas também não é pouco. Foi, até aqui, a declaração mais efetiva nesse sentido, e de certa forma uma inflexão ligeira no discurso encaminhado desde sempre pelos EUA. Obama disse também que "é hora de tratar o diálogo econômico com o Brasil tão seriamente quanto tratamos com a China e a Índia". Parece importante e significativo, não? 

Colocado esse cenário, fica a dúvida: não seria reducionista tratar a visita do presidente norte-americano apenas e tão somente a partir da perspectiva do imperialismo ianque e apenas com palavras de ordem como "Obama, go home"? 

E a Líbia?
Obviamente que ninguém, em sã consciência, pode aceitar ou chancelar a perspectiva de uma invasão ou de uma guerra. Quando a força das armas e dos tanques prevalece, é sinal de fracasso das negociações e da política - e do exercício da racionalidade humana. É o momento em que a barbárie supera a civilização. 

Também não há dúvidas: a decisão de enfrentar um país em seu próprio território envolve sempre uma discussão profunda e delicadíssima - a premissa da inviolabilidade das soberanias nacionais, garantida pela carta de fundação da ONU - e abre precedentes sempre muito perigosos. Escorrega-se para um terreno pantanoso, que pode tornar as relações internacionais exageradamente subjetivas, construídas a partir dos interesses das nações mais fortes e poderosas. Os riscos e impactos são gigantescos e perigosíssimos, insisto.

Sem ingenuidades: é cristalino como a água que a decisão de agir militarmente contra a Líbia não se deu apenas porque as grandes potências planetárias são "boazinhas, benevolentes e combatem ditadores". Há o petróleo líbio, que abastece em grande medida os EUA e os países europeus. Não dá para esquecer que Kadafi, que já foi o demônio, há algum tempo assumiu a condição de amigo dos EUA, para somente mais recentemente voltar a encarnar o mal. Claro ainda que outros ditadores sanguinários aliados (Arábia Saudita é o exemplo principal - e não é o único) não recebem o mesmo tratamento e sequer se cogita uma ação militar contra tais monarquias companheiras. Aos amigos, afagos. O jogo das relações internacionais é muitas vezes sustentado por projetos e interesses pragmáticos e não raro hipócritas e torpes.

Mas vamos lá: seria possível simplesmente fechar os olhos para a tragédia que acontece na Líbia e aguardar, de braços cruzados, Kadafi concluir sua vingança e genocídio? O sujeito está bombardeando a própria população, eliminando focos de oposição, colocando em marcha uma revanche marcada por ódio e ressentimento contra os que ousaram desafiá-lo. Chega ao requinte de crueldade de usar seres humanos como escudos de proteção contra ataques "inimigos". Vamos aceitar calados todas essas atrocidades animalescas, fingindo que nada está acontecendo? 

Há na Líbia um movimento popular autêntico, talvez ainda não tão organizado, mas disposto a derrubar a ditadura instalada no país há mais de 40 anos. É desejável ignorar solenemente essa rebelião, justa, legal e legítima? Se os EUA e os países europeus agem militarmente, são acusados de detonar uma guerra e de desrespeitar soberanias. Faz sentido, certamente. Mas, se permanecessem inertes e imóveis, não seriam por outro lado chamados de insensíveis, omissos e apoiadores indiretos do regime assassino? Não estaríamos agora a vociferar: "covardes!"? Obama foi com toda a razão duramente criticado por não agir contra Mubarak no Egito; agora, é detonado por agir contra Kadafi na Líbia. O que fazer? Como escapar dessa armadilha? Quais as alternativas a encaminhar e vislumbrar? Como resolver esse dilema tão complexo e profundo, tão marcado por sutilezas, nuances e contradições, a ser traduzido de certa forma por um "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come"?    

Tenho dúvidas, muitas dúvidas, como anunciei no primeiro parágrafo do post, compartilhadas neste texto com os leitores. Em meio a tantas perguntas, uma convicção: não é mais possível olhar para o mundo com os olhos reducionistas do maniqueísmo, dos heróis versus bandidos, do bem versus o mal. Entre o preto e o branco, há várias e diferentes tonalidades de cinza.

4 comentários:

  1. Bela reflexão meu velho! É bom ler sobre assuntos que têm um tratamento raso no dia a dia ser harmonicamente dissecado e verticalizado! É uma delícia...e claro, passei pra frente...bjo grande mestre camarada!

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  2. Será que o movimento social egipcio é parecido com o da Libia? No Egito vc via a populaçao comum ido as ruas com paus e pedras. Na Libia a coisa parece ter cara de milicia e, para mim, o processo parece-se mais com uma guerra civil. Equivocada a intervençao feita pelos paises com assento no conselho de segurança.Correta a posiçlao brasileira. Tchau Chico.

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  3. Também tenho dúvidas, camarada. Mas, infelizmente, tenho opinião formada sobre Obama: É um traste.

    É evidente que a viagem oficial do presidente dos Estados Unidos é um acontecimento para qualquer nação. O fato do presidente americano vir ao país, antes que a Presidenta tenha ido pedir benção, é relevante. O acontecimento político é notável.

    Mas a corneta do "Obama go home" deveria ter sido soada muito mais alta. Não se trata de Obama. Se trata da política que ele simboliza. E, até por ter sido eleito num discurso de "esperança", Obama é hoje uma bobagem como figura que poderia motivar algum tipo de transformação. Obama foi adestrado (ou, pior, enganou durante a campanha eleitoral) pela política belicista e conservadora.

    E disse o que disse sobre o Conselho da ONU como forma de agradar a patuléia, de tentar diminuir as resistências da atual administração brasileira na definições de fatia de mercado na exploração do petróleo tupiniquim tupinambá. Ou seja, foi um discurso de brincadeirinha.

    Dilma foi bem, é preciso reconhecer: altiva, elegante e sem complexos de inferioridade. Mas o resto do cenário foi um circo só: a cereja do bolo foi o FHC indo comer a feijoada com tofu no papel de "ex presidente", num espetáculo sem sentido de bajulação. Porque o tofu não foi nada além disso: bajulação. Não houve nenhum tipo de atividade ou ação que justificasse a presença de ex presidentes do Brasil ao evento, só o tofu.

    Quanto a Líbia, creio que há diferenças com relação ao episódio do Egito. O que cobramos do Governo americano não foi uma intervenção armada para resolver o conflito com Mubarak. O que cobramos foi um posicionamento firme que demonstrasse a Mubarak que ele estava sozinho e não tinha apoio americano para ir para um embate com o povo.

    Na Líbia, também. Se o império e a ONU tivessem adotados posicionamentos firmes quando Kadafi começou a ir para a briga disparando contra civis, o conflito não teria se prolongado e o pulha do Kadafi não teria ganho terreno. Depois que o conflito ganhou ares de guerra civil, a intervenção armada cheira a petróleo, em proteger e mitigar os estragos na produção do "combustível". Agora, a Líbia pode virar um atoleiro maior que o Iraque.

    E não se trata de lavar as mãos. É possível uma ação internacional no caso da Líbia sem que haja a intervenção: congelar (de verdade) os bens da família Kadafi, sanções para países e, principalmente, empresas que abasteçam o arsenal bélico do ditador, ajuda humanitária.

    E o posicionamento do Brasil na ONU foi correto, mas poderia ter sido mais exato: votar pelo NÃO.

    De novo, também tenho dúvidas. Há muito mais cousas nas entrelinhas e as análises podem ser superficiais.

    Por fim, "Viva o Amarelinho!"

    Abraço,

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  4. Muito boa a tua reflexão, Chico. Repassei para os meus amigos aqui do NE (Pernambuco e Ceará). Um abraço.

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