terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

PRESIDENTE OBAMA, EU TIVE UM SONHO...

E ao contrário do que costuma acontecer comigo, presidente, me lembro com detalhes deste sonho.

Sonhei que, ao ver as emocionantes imagens do povo egípcio tomando conta de cada canto e de cada esquina das ruas e praças do país, o senhor ouvia o chamado da História e finalmente decidia convocar cadeia de rádio e televisão e, em pronunciamento transmitido ao mundo, anunciava que "A América da democracia está com o povo do Egito e contra as ditaduras, quaisquer que sejam elas".

Sonhei que, nesse discurso, o melhor de todos que já fizera, o senhor se lembrava dos sentimentos e propósitos que moveram sua eleição, em 2008, e dos significados daquela vitória. E que resolvia também assumir publicamente a responsabilidade por muitos dos desmandos cometidos pela tirania sanguinária de Hosni Mubarak, nesses últimos 30 anos, pedindo desculpas pelo apoio incondicional da América ao ditador e comprometendo-se a partir de agora a apoiar firmemente a democracia e a vontade legítima e soberana dos egípcios, sem jamais interferir novamente nos destinos e na soberania do país africano-árabe.      

Sonhei, presidente Obama, que o senhor prometia ao mundo uma nova era de paz. Uma paz global duradoura, e não a pax americana militarizada. E que esse movimento significava também apoiar os ventos de liberdade e de mudanças na Tunísia, no Líbano, na Argélia, no Iêmen, na Arábia Saudita e onde mais eles resolvessem soprar. "Sim, nós podemos mudar o mundo", dizia o senhor. 

Sonhei que, sem perder tempo e mantendo a coerência das iniciativas, e aproveitando o ensejo das mudanças, o senhor dizia que já estava despachando para o Oriente Médio diplomatas que pressionariam de verdade Israel a suspender a construção de colônias em terras palestinas e que finalmente a América usaria toda sua força e peso político para patrocinar e bancar um acordo de paz que fosse justo e digno, garantindo a existência de duas nações independentes, respeitando as resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU) e as fronteiras originais dos dois países. "Sim, os palestinos podem escolher seus próprios caminhos. Têm esse direito. Vamos respeitá-lo". 

Sonhei que o senhor manifestava convicta disposição para recusar a truculência dos republicanos extremistas e do Tea Party que, antes mesmo que seu discurso tivesse terminado, já começavam a espernear e a gritar que o senhor é comunista, um sujeito que quer destruir os fundamentos morais da pátria americana. No próprio discurso, o senhor reforçava que havia chegado o momento da virada e que era preciso colocar em prática e viabilizar o projeto político vitorioso nas urnas em 2008. O senhor dizia, com todas as letras, que não tinha sido eleito para continuar as barbaridades cometidas por Bush filho. 

Esse trecho do discurso, me lembro bem, era calorosamente comemorado por seus eleitores, já nas ruas, e que havia muito esperavam por essa convocação. A fala permitiu assim um reencontro e reconciliação com todos aqueles que em 2008 carregaram as bandeiras da mudança - negros, latinos, jovens, mulheres, trabalhadores, gente comum. O povo que elegeu o senhor. "Sim, a América pode enfrentar a intolerância, o preconceito e o fascismo, mesmo quando estes se encontram em nossas terras", o senhor dizia em meu sonho, já quase no final daquele pronunciamento histórico. 

Pois é, presidente Obama, acho que sonhei com a História. Essa que muitas vezes nos cutuca, nos convida, nos chama, nos convoca e nos sorri, assanhadamente. As grandes lideranças não podem fazer ouvidos moucos a essas convocações. É muita História diante de seus olhos, presidente: Egito, árabes-israelenses, Oriente Médio, isolamento dos republicanos. Com uma tacada só e alguns movimentos coordenados. Não deixe o bonde passar, presidente Obama. Esse é o momento. O mundo está atento, aguardando. A História não lhe absolverá. 

Porque os sonhos, presidente Obama, podem não ser apenas sonhos, não é verdade? Nos idos de 1963, mais precisamente em 28 de agosto daquele ano, o fantástico Martin Luther King, que o senhor (com toda razão) tanto admira e a quem sempre faz questão de fazer referência, em discurso também histórico, dizia à multidão reunida em Washington que "já não podemos nos dar o luxo de esperar, nem de tomar tranquilizantes, como as meias-medidas. É a hora de realizar as promessas da democracia. (..) Será fatal para nossa nação ignorar a urgência do momento". 

Ouça a sabedoria de Luther King, presidente Obama. Pense de coração no povo do Egito que, sem medo, ocupa as ruas. Enquanto termino este texto, já são mais de dois milhões na Praça Tahrir, no centro do Cairo. Compreenda a urgência do momento. E lembre- se que sua eleição, presidente, foi também responsável por transformar em realidade os sonhos de Luther King. Deixo aqui meu apelo final: honre seus compromissos com a História, presidente Obama.

Abraços de um sonhador.

5 comentários:

  1. Sonho, mas sonho menos.
    Esperar iniciativa edificante de Veja, da America é sonhar em vão.
    Mas sei que continuar apontando pra realidade, falar dela,gritar os absurdos é sempre muito saudável.
    Nisso vc é bom...
    Nao dá pra ficar fingindo esse "Alzheimer coletivo" no qual vemos e quase que imediatamente esquecemos imediatamente de tudo que traz indignaçao.
    Sonho mesmo é com o Rivaldo jogando o fino da bola.
    Com o todo o resto,me revolto.
    Como vc.
    Abraço,
    Marcelo

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Beleza de texto. É uma pena que o sonho esteja virando pesadelo!

    Obama faz questão de mostrar que "não, não quero".

    Isso porque, ao contrário do que ele dizia antes de eleito, NÃO, ELE NÃO PODE. Os conglomerados financeiros, tecnológicos, militares, que também apoiaram a sua eleição, não permitem mudanças.

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  4. Porque comentários são apagados? Não é um blog democrático?
    Melhor assumir que tipo de jornalismo é esse, que não respeita opiniões contrárias e não abre espaço para debates.

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  5. Sim, "Anônimo", blog sempre democrático. Lamento informar: sua afirmação não procede. Não apaguei comentário algum. Todos os que foram postados, em todos os textos, permanecem disponíveis para todos os leitores do blog, democraticamente. Isso inclui o seu comentário.

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