sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

OS DISCURSOS DE OBAMA

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, faz na próxima terça-feira, dia 25, o tradicional e importante Pronunciamento do Estado da União, discurso em que, diante do Congresso Nacional, o chefe do Executivo anuncia as diretrizes e prioridades políticas e econômicas para o ano que se inicia.

A expectativa é que Obama trate de temas como a geração de empregos, medidas para enfrentar a crise econômica que ainda atormenta o país, cortes de gastos públicos e de impostos e também da reforma do sistema de saúde, que foi revogada pela maioria republicana na Câmara dos Deputados, em 19 de janeiro, mas que deverá ser mantida pela maioria democrata no Senado.

É provável ainda que Obama aproveite a oportunidade para cobrar civilidade e tolerância no debate político, condenando radicalismos e posições extremistas à direita, a exemplo do que fez no discurso proferido diante de 15 mil pessoas no ginásio da Universidade do Arizona, no dia 12, quando prestou homenagem às vítimas do atentado de Tucson (seis mortos e 13 feridos, entre eles a deputada democrata Gabrielle Giffords).

Na ocasião, em claro recado enviado à oposição de ultra-direita liderada pela ex-candidata republicana a vice-presidente Sarah Palin e pelo Movimento Tea Party, Obama afirmou que "no momento em que nosso discurso se torna fortemente polarizado, no momento em que estamos excessivamente dispostos a colocar a culpa por tudo que nos aflige naqueles que não pensam como nós, é importante fazer uma pausa e garantir que conversemos de uma maneira que cure, e não de uma maneira que fira".

O Pronunciamento do Estado da União acontecerá ainda em um momento em que, por uma série de razões (acordo de desarmamento nuclear com a Rússia, sinais de ligeira recuperação da economia, diálogo com a China e a rápida e convincente resposta no episódio de Tucson, para citar algumas), Obama começa a respirar e a recuperar popularidade. De acordo com o Instituto Gallup, a aprovação do presidente chegou a 53% agora em janeiro (era de 47% em outubro passado; 78% logo após a posse).

É um alento para uma administração que, em meio a erros consideráveis e que merecem ser apontados, lamentados e duramente criticados (ampliação das tropas no Afeganistão e acordos com republicanos para aliviar os mais ricos de impostos; certa timidez no processo de paz entre palestinos e israelenses; a retomada de processos contra presos em Guantánamo), foi capaz na primeira metade do mandato de garantir a volta dos Estados Unidos aos fóruns internacionais de diálogo e de negociação, retomando a diplomacia e abandonando a tese das “guerras preventivas”. Além disso, tirou de zonas nebulosas e trouxe à tona debates fundamentais, que têm mobilizado parcelas representativas da sociedade e justamente por isso suscitado a ira dos conservadores, como o combate ao aquecimento global, a permissão para pesquisas com células-tronco embrionárias, o direito ao aborto, a garantia dos direitos dos imigrantes e dos homossexuais e, talvez vitória mais emblemática e concreta, a aprovação do sistema público e universal de saúde, antiga demanda do Partido Democrata.

É fato que Obama patinou na comunicação com a sociedade (justo ele, que fez da internet, das entrevistas e dos discursos recursos decisivos na conquista da Presidência); também demorou a compreender o peso que o bom desempenho da economia nacional tem na agenda norte-americana e na avaliação do governo.

Mas não é possível minimizar nessa análise a oposição implacável – truculenta e preconceituosa – feita por setores mais conservadores do Partido Republicano (Sarah Palin à frente), pelo Tea Party, pelos fundamentalistas religiosos (defensores dos valores “puros” da pátria), pelos pregadores da supremacia racial branca. E não é fácil enfrentar uma adversária aguerrida,  nociva e poderosa como a rede de TV FOX, principal responsável por amplificar e publicizar, em nível nacional, as teses da extrema-direita norte-americana, espalhando por consequência a cultura de ódio que toma conta dos Estados Unidos, como revelam artigo do professor Venício de Lima publicado no último dia 18, no Observatório da Imprensa, e texto do jornalista Antonio Luiz Costa, na revista Carta Capital.

O Pronunciamento do Estado da União poderá ser mais um passo decisivo para Obama nessa trajetória de reafirmação de seu programa de governo, de recuperação de apoio popular e restabelecimento de canais de interlocução com a sociedade. Não custa lembrar que o presidente norte-americano é reconhecidamente um mestre na arte dos discursos, que em geral procuram equilibrar razão (bons argumentos) com emoção (convites à ação).

O momento é propício portanto para lembrar um outro discurso de Obama – o da vitória, feito em 05 de novembro de 2008, no Grand Park de Chicago, quando o primeiro presidente negro da história dos EUA falou para mais de 200 mil entusiasmados eleitores, depois de ter recebido nas urnas mais de 69 milhões de votos (53% do total).

O texto, claro, é longo, bem longo. Mas, paciência, pois vale a pena ser lido. É um documento histórico, eternizado por um presidente que, na modesta opinião deste blogueiro, com avanços e recuos, acertos e erros, e mesmo longe de representar o governo de nossos sonhos, está ajudando a mudar um pouco do semblante carrancudo da História que vinha sendo escrita.
--------------------


"Boa noite, Chicago! Se houver nesta sala uma única pessoa que ainda duvide que a América seja um lugar onde tudo é possível, que ainda se pergunta todos os dias se o sonho de nossos fundadores continua vivo, que ainda questiona a força de nossa democracia, esta noite é sua resposta.
É a resposta dada pelas filas que se estenderam ao redor de escolas e igrejas em um número como esta nação jamais viu, pelas pessoas que esperaram três ou quatro horas, muitas delas pela primeira vez em suas vidas, porque achavam que desta vez tinha que ser diferente e que suas vozes poderiam fazer esta diferença.
É a resposta pronunciada por jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, indígenas, homossexuais, heterossexuais, incapacitados ou não-incapacitados. Americanos que lembraram ao mundo inteiro a mensagem de que nunca fomos simplesmente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de Estados vermelhos e Estados azuis.
Somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.
É a resposta que conduziu aqueles que durante tanto tempo foram aconselhados por tantos a serem céticos, temerosos e duvidosos sobre o que podemos conseguir para colocar as mãos no arco da História e apontá-lo mais uma vez em direção à esperança de um dia melhor.
Demorou um tempo para chegar, mas esta noite, pelo que fizemos nesta data, nestas eleições, neste momento decisivo, a mudança chegou à América.
Esta noite, recebi um telefonema extraordinariamente cortês do senador McCain. O senador McCain lutou longa e duramente nesta campanha. E lutou ainda mais longa e duramente pelo país que ama. Aguentou sacrifícios pelos EUA que sequer podemos imaginar. Todos nos beneficiamos do serviço prestado por este líder valente e abnegado. Parabenizo a ele e à governadora Palin por tudo o que conseguiram e desejo colaborar com eles para renovar a promessa desta nação durante os próximos meses.
Quero agradecer a meu parceiro nesta viagem, um homem que fez campanha com o coração e que foi o porta-voz de homens e mulheres com os quais cresceu nas ruas de Scranton e com os quais viajava de trem de volta para sua casa em Delaware, o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.
E não estaria aqui esta noite sem o apoio incansável de minha melhor amiga durante os últimos 16 anos, a rocha de nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama da nação, Michelle Obama. Sasha e Malia amo vocês duas mais do que podem imaginar. E vocês ganharam o novo cachorrinho que está indo conosco para a Casa Branca. Apesar de não estar mais conosco, sei que minha avó está nos vendo, junto com a família que fez de mim o que sou. Sinto falta deles esta noite. Sei que minha dívida com eles é incalculável. À minha irmã Maya, minha irmã Auma, meus outros irmãos e irmãs, muitíssimo obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a todos vocês. E a meu diretor de campanha, David Plouffe, o herói não reconhecido desta campanha, que construiu a melhor campanha política, creio eu, da história dos Estados Unidos da América. A meu estrategista chefe, David Axelrod, que foi um parceiro meu a cada passo do caminho. À melhor equipe de campanha formada na história da política.
Vocês tornaram isto realidade e estou eternamente grato pelo que sacrificaram para conseguir. Mas, sobretudo, não esquecerei a quem realmente pertence esta vitória. Ela pertence a vocês. Ela pertence a vocês.
Nunca pareci o candidato com mais chances. Não começamos com muito dinheiro nem com muitos apoios. Nossa campanha não foi idealizada nos corredores de Washington. Começou nos quintais de Des Moines e nas salas de Concord e nas varandas de Charleston.
Foi construída pelos trabalhadores e trabalhadoras que recorreram às parcas economias que tinham para doar cinco, dez ou vinte dólares à causa.
Ganhou força dos jovens que negaram o mito da apatia de sua geração, que deixaram para trás suas casas e seus familiares por empregos que lhes ofereciam pouco dinheiro e menos sono.
Ganhou força das pessoas não tão jovens que enfrentaram o frio gelado e o ardente calor para bater nas portas de desconhecidos, e dos milhões de americanos que se ofereceram como voluntários e organizaram e demonstraram que, mais de dois séculos depois, um governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.
Esta é a vitória de vocês. Além disso, sei que não fizeram isto só para vencerem as eleições. Sei que não fizeram por mim.
Fizeram porque entenderam a magnitude da tarefa que há pela frente. Enquanto comemoramos esta noite, sabemos que os desafios que nos trará o dia de amanhã são os maiores de nossas vidas - duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira em um século.
Enquanto estamos aqui esta noite, sabemos que há americanos valentes que acordam nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para dar a vida por nós.
Há mães e pais que passarão noites em claro depois que as crianças dormirem e se perguntarão como pagarão a hipoteca ou as faturas médicas ou como economizarão o suficiente para a educação universitária de seus filhos.
Há novas fontes de energia para serem aproveitadas, novos postos de trabalho para serem criados, novas escolas para serem construídas e ameaças para serem enfrentadas, alianças para serem reparadas.
O caminho pela frente será longo. A subida será íngreme. Pode ser que não consigamos em um ano nem em um mandato. No entanto, América, nunca estive tão esperançoso como estou esta noite de que chegaremos.
Prometo a vocês que nós, como povo, conseguiremos. Haverá percalços e passos em falso. Muitos não estarão de acordo com cada decisão ou política minha quando assumir a presidência. E sabemos que o Governo não pode resolver todos os problemas.
Mas sempre serei sincero com vocês sobre os desafios que nos afrontam. Ouvirei a vocês, principalmente quando discordarmos. E, sobretudo, pedirei a vocês que participem do trabalho de reconstruir esta nação, da única forma como foi feita nos Estados Unidos durante 221 anos, bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada sobre mão calejada.
O que começou há 21 meses em pleno inverno não pode acabar nesta noite de outono.
Esta vitória em si não é a mudança que buscamos. É só a oportunidade para que façamos esta mudança. E isto não pode acontecer se voltarmos a como era antes. Não pode acontecer sem vocês, sem um novo espírito de sacrifício.
Portanto façamos um pedido a um novo espírito do patriotismo, de responsabilidade, em que cada um se ajuda e trabalha mais e se preocupa não só com si próprio, mas um com o outro.
Lembremos que, se esta crise financeira nos ensinou algo, é que não pode haver uma Wall Street próspera enquanto a Main Street sofre.
Neste país, avançamos ou fracassamos como uma só nação, como um só povo. Resistamos à tentação de recair no partidarismo, na mesquinharia e na imaturidade que intoxicaram nossa vida política há tanto tempo.
Lembremos que foi um homem deste estado que levou pela primeira vez a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre os valores da auto-suficiência e da liberdade do indivíduo e da união nacional.
Estes são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata conquistou uma grande vitória esta noite, fazemos com certa humildade e a determinação para curar as divisões que impediram nosso progresso.
Como disse Lincoln a uma nação muito mais dividida que a nossa, não somos inimigos, mas amigos. Embora as paixões os tenham colocado sob tensão, não devem romper nossos laços de afeto.
E àqueles americanos cujo apoio eu ainda devo conquistar, pode ser que eu não tenha conquistado seu voto hoje, mas ouço suas vozes. Preciso de sua ajuda e também serei seu presidente.
E a todos aqueles que nos vêem esta noite além de nossas fronteiras, em Parlamentos e palácios, a aqueles que se reúnem ao redor dos rádios nos cantos esquecidos do mundo, nossas histórias são diferentes, mas nosso destino é comum e começa um novo amanhecer de liderança americana.
A aqueles que pretendem destruir o mundo: vamos vencê-los. A aqueles que buscam a paz e a segurança: vamos apoiá-los.
E a aqueles que se perguntam se o farol da América ainda brilha tão fortemente, esta noite demonstramos mais uma vez que a força autêntica de nossa nação vem não do poderio de nossas armas nem da magnitude de nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e firme esperança.
Lá está a verdadeira genialidade dos EUA: que o país pode mudar. Nossa união pode ser aperfeiçoada. O que já conseguimos nos dá esperança sobre o que podemos e temos que conseguir amanhã.
Estas eleições contaram com muitos inícios e muitas histórias que serão contadas durante séculos. Mas uma que tenho em mente esta noite é a de uma mulher que votou em Atlanta.
Ela se parece muito com outros que fizeram fila para fazer com que sua voz fosse ouvida nestas eleições, exceto por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Nasceu apenas uma geração depois da escravidão, em uma era em que não havia automóveis nas estradas nem aviões nos céus, quando alguém como ela não podia votar por dois motivos - por ser mulher e pela cor de sua pele.
Esta noite penso em tudo o que ela testemunhou durante seu século na América - a desolação e a esperança, a luta e o progresso, as vezes em que nos disseram que não podíamos e as pessoas que se esforçaram para continuar em frente com esta crença americana: sim, nós podemos!
Em uma época em que as vozes das mulheres foram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela sobreviveu para vê-las serem erguidas, expressarem-se e estenderem a mão para votar. Sim, nós podemos.
Quando havia desespero e uma depressão ao longo do país, ela viu como uma nação superou o próprio medo com uma nova proposta, novos empregos e um novo sentido de propósitos comuns. Sim, nós podemos.
Quando as bombas caíram sobre nosso porto e a tirania ameaçou o mundo, ela estava ali para testemunhar como uma geração respondeu com grandeza e a democracia foi salva. Sim, nós podemos.
Ela estava lá pelos ônibus de Montgomery, pelas mangueiras de irrigação em Birmingham, por uma ponte em Selma e por um pregador de Atlanta que disse a um povo: "Superaremos". Sim, nós podemos.
O homem chegou à lua, um muro caiu em Berlim e um mundo se interligou através de nossa ciência e imaginação. E este ano, nestas eleições, ela tocou uma tela com o dedo e votou, porque após 106 anos na América, durante os melhores e piores tempos, ela sabe como a América pode mudar. Sim, nós podemos.
América, avançamos muito. Vimos muito. Mas há muito mais por fazer.
Portanto, esta noite vamos nos perguntar se nossos filhos viverão para ver o próximo século, se minhas filhas terão tanta sorte para viver tanto tempo quanto Ann Nixon Cooper. E o que eles verão? Que progressos faremos?
Esta é nossa oportunidade de responder a esta chamada. Este é o nosso momento. Esta é nossa vez.
Para dar emprego a nosso povo e abrir as portas da oportunidade para nossas crianças, para restaurar a prosperidade e fomentar a causa da paz, para recuperar o sonho americano e reafirmar esta verdade fundamental: de muitos, somos um, e enquanto respirarmos, teremos esperança.
E quando nos encontrarmos com o ceticismo e as dúvidas, e com aqueles que nos dizem que não podemos, responderemos com esta esperança eterna que resume o espírito de um povo: sim, nós podemos.
Obrigado. Que Deus os abençoe. E que Deus abençoe os Estados Unidos da América".
(livre tradução + apoio site Terra + “Discursos que mudaram o mundo” – Coleção Folha)

Nenhum comentário:

Postar um comentário